Toda vez que alguma coisa importante, (ok, que eu considere importante), sendo para o bem ou para o mal, acontece em minha vida, eu faço alguma arte no meu cabelo.
Isso já me gerou diversos problemas a médio e longo prazo, mais ou menos o tempo que um cabelo precisa para crescer novamente ou para que aquela tinta infeliz desça ao ponto de um bom corte...
Neste exato momento, por sinal, estou maturando a idéia de passar a tesoura nos meus cabelos. Porém, para isso parecer belo aos olhos alheios, preciso investir pesado em uma boa "escova qualquer coisa que alisa mesmo depois de uma lavagem capilar sem o uso de secador". Como ando meio sem grana para tal investimento e diante de todos os traumas do passado estou ponderando bastante as consequências desse meu desejo.
Na Feira de Santana da década de 90, alguns eventos eram intensamente aguardados e desejados pala juventude local.
Em especial, existia um baile pré-micaretesco chamado Cajú de Ouro no extinto Clube de Campo Cajueiro, o mais bem frequentado clube do sertão baiano, que era um divisor de águas na vida de qualquer criança.
Deixar de ir ao Cajú Mirim, bailinho matinê que rolava dia ou dias antes do Cajú de Ouro e passar a frequentar esse baile momesco era carimbar seu passaporte para a maturidade, mesmo que fosse acompanhado de pais, tios, padrinhos, irmãos mais velhos, ...
Dessa forma, como já podem prever, isso era muito importante para mim e o meu primeiro Cajú de Ouro então gerou unhas ruídas, falta de apetite, insônia, tamanha era a apreensão com a data vindoura.
Claro que comprei uma roupa nova. Look completo. Lembro bem, uma saia vinho de brim e uma blusa de manga comprida com uns desenhos psicodélicos da Zapping, grife que nem sei se existe mais, compradas na boutique mais chique da cidade, Geni Boutique, e um sapato boneca de verniz preto da Arezzo com salto intermediário (meu primeiro salto) importado diretamente da capital baiana. Coisa de louco!
As horas que antecederam a festa foi de salão também, unhas feitíssimas, depilação na época ainda não, afinal, eu tinha somente 13 anos e minha mãe não permitia muitas coisas que faço hoje (e que ela ainda não permite, diga-se) e o cabelo, ahh o cabelo! Minha primeira "arrumação capilar" para um "evento realmente importante" em minha vida! Aparei as pontas, tonalizei pela primeira vez de castanho acobreado, escovei e por fim pranchei as longas malenas. Já ia me esquecendo que na hora da prancha a cabeleireira queimou meu couro capilar com a lateral da dita gerando-me um eterno trauma do artefato finalizador de penteados, mas juro, isso definitivamente não ofuscou o brilho do meu cabelo que finalmente estava parecido com os cabelos naturais de minhas amigas, lisinho, lisinho...
Já saí de casa em baixo de uma chuva torrencial, coisa relativamente comum de se acontecer em Feira na época do baile. Levamos guarda-chuva mas em nada, dava no mesmo. Foi tanta água, mas tanta água que o castanho acobreado desceu cabelo abaixo deixando minha blusa da Zapping mais psicodélica ainda, o cabelo, claro, incompatível a qualquer gota de água encolheu e cacheou todinho dando fim assim ao meu sonho encantando de uma noite de outono.
No ano seguinte, não necessariamente consecutivo, eu sentia que tudo seria diferente e fui cortar meus cabelos com Jorginho, o cabeleireiro mais excêntrico e famoso da cidade.
"Oi FÓfinha, tudo bem? Como vamos cortar esse lindo cabelo?"
"Bem, eu queria um corte curto."
"Mas seu cabelo é um pouco cheio (modéstia dele), se cortarmos muito curto você vai ter trabalho em casa... (para domesticá-lo, claro!)"
"Então pode ser um corte intermediário (eu já sonhava com um cabelo curto nesta época)."
"Então vou fazer um corte que você vai A M A R."
Minha mãe já olhou atravessado lá do sofá, como se prevesse o final trágico dessa minha incursão.
Corte finalizado, escova aplicada, o cabelo era dos deuses. Ele tinha conseguido fazer um franjão e duas camadas bem definidas, o que dava a sensação de cabelo super comportado e o mais interessante, tinha ficado longo. Fui feliz da vida para casa me vestir e seguir rumo ao Cajú de Ouro, dessa vez só com amigas! (Ainda éramos menores de idade mas tudo em Feira era bem flexível e inocente nessa época).
O clima do sertão é bem peculiar e nada, nada propício para a manutenção de penteados, ainda mais no relento como acontecia essa festa. Dias muito quentes e abafados, noites frias e úmidas. Claro que cheguei linda e radiante ao CCC mas horas depois de exposição ao friozinho úmido da cidade...
"kkkkkkkkkkkkkkkk (Larissa apontando o dedo para mim)"
"O que foi?"
"kkkkkkkk (Fernanda rindo também)"
"O que foi gente? ( Eu já pensava em milhões de coisas, botão da camisa de cetim, que era moda na época, aberto, dente com pedacinho de carne-do-sol exposto, arght, batom borrado, sei lá!)"
"Rachel, seu cabelo tá muito estranho."
Impressionante como nessa idade costumamos ser especialmente cruéis com nossos coleguinhas.
Saí correndo que nem uma louca, cega por um banheiro com espelhos, afinal de contas, depois de ter passado pelo super Jorginho o que poderia ter dado errado?
Minha surpresa foi digna de um infarte fulminante.
Eu estava parecendo um cruzamento de Zezé de Camargo em início de carreira com seu mullet super brega longo e aqueles poodles de madame bem tosadinhos que vemos nos filmes estrangeiros.
Claro que do banheiro mesmo tomei o rumo de casa. Só avisei as meninas que não voltaria com elas e que estava pegando um táxi.
No dia seguinte fui a cabeleireiro, indignada, exigindo uma solução imediata para o meu problema. Como a merda já tinha sido feita, ele só conseguiu diminuir um pouco o comprimento do mullet e finalmente de cabelo curto, passei uns 3 meses indo ao colégio de cabelo preso e com "tic tacs" coloridas por toda a cabeça, tentativa deseseradora de conter a juba mal cortada.
Ainda recordando as estórias com meu cabelo, quando passei no vestibular para publicidade, vim a capital cortar o dito com um excêntrico cabeleireiro da Rua Alameda das Rosas na Pituba, muito conhecido pela classes mais abastardas de Feira de Santana.
A fachada era de uma casa comum com um sistema de interfone onde quem está lá dentro vê quem está de fora. Se esse interfone fosse recíproco eu com certeza não teria levado adiante aquela loucura, afinal, só uma olhadinha na cara de doido do profissional e eu entenderia o tamanho da enrascada em que estaria me metendo.
A recepcionista logo me questionou quanto a hora marcada e como disse que não tinha providenciado isso logo fui posta a escanteio. Depois de muito esperar sou conduzida até a cadeira do maluquinho. Mas a cadeira era um mero artigo de decoração. Ele cortava o cabelo das clientes em pé!
"Não precisa sentar querida."
"Ah, em pé mesmo?"
"Isso!"
O detalhe que no momento mais me preocupou é que eu era muito maior que ele e como sempre que vou cortar o cabelo rola várias medições em diversos ângulos como ele conseguiria fazer isso naquela situação?
E não fez.
Quando terminou, eu já tinha sentido uma coisa meio estranha, assimétrica por assim dizer. Em casa, analisando cuidadosamente a obra de arte me deparei com o lado esquerdo do cabelo 3 vezes maior que o direito. Entrei em depressão. Não queria nem sair de casa sem antes ir a um outro cabeleireiro. De quebra, minha mãe também insatisfeita com o resultado final e diante do alto valor desprendido pelo corte decretou que iríamos ajeitar sim mas com o mesmo cabeleireiro. E o desespero de encarar o baixinho e dizer:
"Oi, você deixou um lado do meu cabelo maior do que o outro."
Nossa, só imaginava aquela Mona descendo do salto e fechando o barraco comigo...
Mas tive que dizer exatamente isso:
"Oi, você deixou um lado do meu cabelo maior do que o outro."
"Não queridinha, você não entendeu a proposta do corte, ele é assim mesmo, uma coisa bem moderna."
Moderno você sair de casa com uma ladeira do Pelô na cabeleira?
Preciso mesmo perder esse hábito de mudar o cabelo a cada acontecimento de vida que considero importante, caso contrário, muito em breve correrei o risco de durmir com cabelo e acordar careca, no melhor estilo, tirei para lavar!
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